Anaconda retorna às telas carregando um peso curioso: o de uma franquia que nunca foi exatamente respeitada pela crítica, mas que conquistou um lugar sólido no imaginário popular. O filme original de 1997 tornou-se um clássico cult justamente por seu exagero, efeitos questionáveis e uma abordagem quase absurda do terror de sobrevivência. A nova produção entende esse legado e decide não lutar contra ele, mas sim abraçá-lo — ainda que nem sempre com total controle sobre o tom que deseja alcançar.
A trama parte de uma premissa interessante e até inesperadamente reflexiva. Um grupo de amigos, todos atravessando uma crise de meia-idade, decide refazer o filme favorito da juventude como uma forma de reviver tempos mais simples e recuperar uma sensação de pertencimento perdida com os anos. Essa ideia carrega um potencial emocional forte, pois dialoga diretamente com o próprio público que cresceu assistindo a Anaconda. O filme, assim, estabelece uma relação metalinguística com sua audiência: pessoas que, assim como os personagens, tentam reencontrar algo do passado em meio ao caos do presente.
A decisão de ambientar novamente a história em uma floresta tropical reforça o caráter clássico da franquia. A selva é apresentada como um espaço opressor, imprevisível e perigoso, onde o ser humano está constantemente em desvantagem. O calor excessivo, as chuvas torrenciais, o terreno instável e a sensação de isolamento contribuem para uma atmosfera que, em teoria, deveria intensificar o suspense. No entanto, o filme raramente explora esse ambiente de maneira realmente criativa. Muitas cenas poderiam aprofundar o medo psicológico ou o sentimento de vulnerabilidade, mas acabam resolvidas rapidamente, priorizando a ação imediata em vez da construção gradual da tensão.
Quando os perigos começam a surgir, o longa amplia seu escopo de ameaças. Além da natureza hostil, os personagens enfrentam criminosos violentos, fenômenos climáticos extremos e, claro, as icônicas cobras gigantes. Essa sobrecarga de conflitos faz com que o filme nunca fique parado, mas também contribui para uma narrativa um tanto caótica. Em vez de um aumento progressivo do perigo, o espectador é bombardeado por situações extremas em sequência, o que reduz o impacto de cada uma delas.
As anacondas continuam sendo o principal atrativo. Visualmente, o filme oscila bastante. Há momentos em que os efeitos especiais conseguem criar uma presença intimidadora, transmitindo o tamanho e a força dessas criaturas. Em outros, o CGI é claramente artificial, remetendo ao cinema B e reforçando o tom exagerado da franquia. Curiosamente, essa inconsistência pode funcionar a favor do filme para determinados públicos. Anaconda nunca foi sinônimo de realismo, e essa nova versão parece consciente disso, optando por um espetáculo que flerta constantemente com o absurdo.
O humor é um elemento constante e, ao mesmo tempo, problemático. Em diversas cenas, piadas surgem em momentos que pediam mais tensão, quebrando o ritmo e enfraquecendo o impacto do perigo. Ainda assim, esse humor funciona bem ao retratar a dinâmica entre os amigos, especialmente quando o roteiro explora a frustração, o medo de envelhecer e a sensação de ter ficado para trás. Nessas interações, o filme encontra seus momentos mais humanos e genuínos.
Infelizmente, os personagens não recebem o desenvolvimento que merecem. A crise de meia-idade, que poderia ser o coração emocional da narrativa, acaba tratada de forma superficial. Existem reflexões interessantes sobre amizade, arrependimento e coragem, mas elas raramente evoluem ao longo do filme. Os personagens sobrevivem, mudam e seguem em frente, porém sem transformações realmente marcantes. O que poderia ser uma jornada interna poderosa se resume a alguns diálogos pontuais.
No aspecto técnico, a direção é funcional, mas pouco inspirada. As cenas de ação são claras, porém previsíveis, e o terror raramente provoca tensão genuína. O filme parece mais interessado em manter o ritmo acelerado do que em criar cenas memoráveis. Ainda assim, a trilha sonora e o uso de sons da floresta ajudam a sustentar uma atmosfera constante de perigo, mesmo quando o roteiro falha em aprofundá-la.
No fim, Anaconda é um filme que entende suas próprias limitações. Ele não busca reinventar o gênero nem elevar a franquia a um novo patamar artístico. Sua proposta é oferecer entretenimento descompromissado, misturando nostalgia, aventura, ação e um terror exagerado. Para fãs antigos, há um certo charme em ver a franquia retornar sem vergonha de suas origens. Para novos espectadores, o filme pode parecer apenas mais uma produção genérica de sobrevivência.
Anaconda funciona melhor quando aceita seu lado absurdo e falha quando tenta parecer mais profundo do que realmente é. Ainda assim, há diversão a ser encontrada, especialmente para quem entra na sessão com expectativas alinhadas ao espírito da franquia.]

