A continuação de Zootopia busca ampliar significativamente o universo e a profundidade emocional apresentados no primeiro filme, e isso se reflete na forma como Judy Hopps e Nick Wilde são inseridos em uma nova jornada investigativa que exige deles muito mais do que apenas habilidade policial. A chegada de Gary, um réptil cuja presença é, desde o início, envolta em mistério, força a cidade inteira a lidar com um tipo de animal pouco comum em seus arredores.
Esse deslocamento da zona de conforto tanto da população quanto dos protagonistas serve como ponto de partida para reflexões sobre diversidade, preconceitos velados e a dificuldade de conviver com o desconhecido. O filme, embora mantenha uma tonalidade leve e acessível ao público infantil, tenta manter também a camada crítica que marcou seu antecessor, ainda que sem a mesma força ou impacto.
O roteiro se empenha em mostrar como Judy e Nick evoluíram desde sua primeira aventura. Judy continua movida por seu senso de justiça, agora mais amadurecido e menos impulsivo, enquanto Nick demonstra ter abraçado a carreira policial de forma mais séria, sem perder sua ironia característica. A relação entre os dois é apresentada com mais intimidade profissional, revelando pequenas divergências que surgem conforme a investigação avança. Há momentos em que a confiança entre eles é colocada à prova, não de maneira exagerada, mas com a intenção de mostrar que parcerias sólidas também exigem confrontos e honestidade.
Essa abordagem dá ao filme uma dimensão emocional mais realista, permitindo que o público veja a dupla não apenas como heróis perfeitos, mas como indivíduos que precisam aprender continuamente.
A construção de Gary como figura central da trama é um dos aspectos mais interessantes do filme. O público é levado a desconfiar dele desde suas primeiras aparições, e o longa se aproveita da condição reptiliana do personagem para fortalecer um estranhamento natural, tanto dos habitantes da cidade quanto do próprio espectador.
A narrativa utiliza esse desconforto inicial como metáfora para o medo do diferente. Porém, conforme a história avança, surgem informações sobre seu passado, sua personalidade e suas motivações que quebram a imagem inicial de ameaça. O problema é que, embora Gary seja intrigante, a revelação completa de sua história enfraquece parte do impacto construído no primeiro e segundo atos, deixando a sensação de que o personagem poderia ter sido explorado com mais profundidade.
A ambientação do filme é um de seus pontos mais fortes. As novas áreas de Zootopia que a investigação exige que Judy e Nick explorem são criadas com riqueza de detalhes, mostrando ambientes que ampliam drasticamente o imaginário do público sobre a cidade. Há regiões subterrâneas, áreas mais selvagens, zonas dominadas por espécies pouco representadas anteriormente e locais que contrapõem a estética urbana já conhecida.
Cada espaço é animado com cuidado para representar elementos culturais específicos de diferentes grupos de animais, reforçando a ideia de que Zootopia não é apenas uma metrópole, mas um mosaico de ecossistemas sociais complexos. A qualidade visual se mantém impecável, com texturas, iluminação e movimentos que demonstram a elevada competência técnica do estúdio.
A trilha sonora acompanha o ritmo narrativo de forma eficiente, com composições que alternam entre tensão e descontração, sem destoar da atmosfera geral. Ainda assim, falta um tema musical realmente marcante, algo que se torne memorável após o fim da sessão. Esse aspecto contribui para a sensação de que, embora bem executado, o filme evita ousadias maiores, preferindo permanecer em terreno seguro para não correr riscos criativos.
O maior problema estrutural aparece no terceiro ato. Depois de construir um mistério envolvente por boa parte da trama, a resolução chega de maneira apressada. As explicações sobre Gary, seus motivos e o desfecho da investigação acontecem em ritmo acelerado, quase como se o tempo estivesse se esgotando e fosse necessário concluir tudo antes de um limite rígido. Isso reduz o peso dramático do encerramento e diminui a sensação de recompensa que o público poderia ter ao acompanhar todas as pistas colocadas ao longo do filme.
Além disso, vários personagens secundários importantes do primeiro filme aparecem brevemente, sem receber destaque suficiente para justificar sua presença. Essa diminuição de suas funções acaba deixando o universo um pouco menos equilibrado do que era anteriormente.
Apesar dessas limitações, Zootopia 2 ainda entrega uma experiência envolvente e agradável. A força da relação entre Judy e Nick continua sendo o pilar central da história, e a expansão do universo mantém o interesse do público, oferecendo novas perspectivas sobre como diferentes espécies convivem, cooperam e, por vezes, entram em conflito.
O filme se apoia na estética, na comédia leve e no carisma dos protagonistas para garantir que a narrativa permaneça fluida e acessível, mesmo quando se aventura por temas mais sérios. Embora não alcance a mesma profundidade emocional ou impacto cultural do primeiro filme, consegue sustentar a franquia com dignidade e sugerir que ainda há espaço para novas histórias dentro desse mundo tão rico.
De modo geral, a continuação não é revolucionária, mas é eficiente, divertida e visualmente impressionante. Ela reafirma o potencial do universo de Zootopia, mesmo que perca a oportunidade de aprofundar certos dilemas que poderiam torná-la mais marcante. A sensação final é de satisfação moderada: é um bom filme, acima da média para animações contemporâneas, mas que não alcança o brilho extraordinário de sua estreia. Ainda assim, a aventura funciona, entretém e deixa portas abertas para novas possibilidades.

🎬🎬🎬🎬 4/5
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