A série Tremembé se propõe a reconstruir, com forte carga dramática e imagética, o universo sombrio da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, popularmente conhecida como Tremembé II, uma das prisões de segurança máxima mais famosas do Brasil. A proposta narrativa parte de um ponto de vista ousado: observar a prisão através das vivências, percepções e distorções mentais de personalidades que chocaram o país com crimes de grande repercussão. Assim, a série se coloca no ponto delicado entre ficção dramática, thriller psicológico e docudrama inspirado em acontecimentos reais.
Logo nos primeiros episódios, fica claro que a produção assume uma estética sombria e uma atmosfera quase opressiva. O design de produção utiliza corredores estreitos, cores frias, enquadramentos fechados e iluminação dirigida para transmitir uma sensação constante de confinamento emocional e físico. A escolha por manter a câmera muitas vezes na altura do olhar dos internos, ou mesmo em planos cerrados no rosto, reforça o desconforto e cria uma aproximação incômoda entre o espectador e figuras cuja existência já causa repulsa coletiva.
A série é baseada em dois livros-reportagem de Ulisses Campbell, conhecido por sua abordagem direta e investigativa sobre casos de grande impacto. Ao adaptar essas obras, os roteiristas optam por uma reinterpretação que mistura fatos documentados, depoimentos, dramatização e elementos de ficção psicológica. Não se trata de uma reprodução literal dos crimes ou do cotidiano penitenciário, mas de uma imersão narrativa que busca revelar camadas subjetivas: medos, racionalizações, sentimentos contraditórios e a convivência com a própria sombra.
Um dos pontos fortes da série é sua habilidade de retratar o cotidiano da prisão sem recorrer ao sensacionalismo gratuito. Embora o ambiente seja naturalmente hostil, violento e carregado de tensão, a produção evita transformar a violência em espetáculo. Em vez disso, direciona o foco para interações humanas, conflitos internos e dinâmicas sociais entre detentas e detentos que, apesar de terem cometido crimes brutais, continuam existindo dentro de uma estrutura extremamente hierarquizada.
A presença de figuras como Suzane von Richthofen, Cristian Cravinhos, Elize Matsunaga e Roger Abdelmassih traz à tona uma questão inevitável: como representar criminosos reais sem glorificá-los? A série acerta ao evitar traçar um caminho de redenção forçada ou sentimentalismo barato. O roteiro explora as contradições desses personagens, mostrando que suas narrativas pessoais continuam sendo atravessadas por manipulação, culpa seletiva, autoengano ou frieza emocional. Nenhum deles aparece como vítima do sistema, mas como agentes inseridos em uma moral distorcida pela própria história.
O arco narrativo de Suzane, por exemplo, é construído com forte carga psicológica. A série não tenta explicar ou justificar suas ações, mas revela seus mecanismos de defesa, sua habilidade social dentro da prisão e sua relação com a própria imagem — algo que sempre foi central em sua trajetória pública. Já a representação de Elize Matsunaga tem contornos diferentes: a série investiga as nuances de uma mulher que cometeu um crime brutal, mas cujos fatores emocionais e históricos são mais tangíveis que os de outros internos. Essa diferenciação de perspectivas amplia o alcance dramático da produção.
A interpretação do elenco é, sem dúvida, um dos pilares da série. As atrizes e atores mergulham em expressões contidas, olhares calculados e posturas corporais marcadas pelo confinamento. É notável como o trabalho físico dos intérpretes contribui para a autenticidade dos personagens. A fala abafada, os movimentos tensos e as pausas desconfortáveis sustentam a atmosfera constante de vigilância que marca o ambiente.
O ritmo da série, porém, pode ser um ponto de divisão entre espectadores. Quem busca um thriller acelerado talvez se frustre com a cadência lenta e introspectiva da narrativa. Há muitos momentos de silêncio, reflexões internas e longas sequências que constroem clima antes de oferecer ação. Contudo, essa escolha funciona para o propósito da série: revelar a temporalidade estagnada da prisão, onde dias parecem se repetir e o tempo psicológico pesa mais que o cronológico.
Outro aspecto marcante é o uso da trilha sonora. Leve, tensa e por vezes quase imperceptível, a música atua como uma camada de inquietude. Não se impõe, mas acompanha os estados internos dos personagens. Em cenas-chave, a ausência deliberada de trilha amplia a sensação de choque e te coloca frente ao vazio moral dos indivíduos retratados.
Em termos de estrutura, Tremembé faz um interessante jogo entre passado e presente. Flashbacks revelam fragmentos dos crimes ou do momento da prisão, mas nunca são apresentados como cenas completas ou conclusivas. Isso reforça a intenção de não reconstituir os crimes, mas de evidenciar a instabilidade da memória e da subjetividade desses internos. É uma tentativa de mostrar que, na cabeça de alguns deles, a realidade é reescrita constantemente para acomodar versões mais suportáveis de si mesmos.
A produção também acerta ao mostrar a convivência entre detentos que, apesar de famosos, precisam se adaptar às regras da dinâmica carcerária. O contraste entre notoriedade pública e anonimato dentro da prisão aparece como tema recorrente. Para alguns, a fama se torna arma; para outros, um peso insuportável; para muitos, uma ilusão que já não tem relevância naquele universo fechado.
Há ainda um rico trabalho sobre a figura da mídia. A série frequentemente insinua como reportagens, entrevistas antigas e a cobertura sensacionalista do passado continuam ecoando dentro da vida carcerária. A mídia funciona como fantasma, lembrança constante e até combustível para alguns internos manterem uma narrativa heroica ou vitimista de si mesmos.
Do ponto de vista ético, Tremembé abre discussões importantes. Até que ponto é saudável transformar criminosos reais em personagens dramáticos? Como equilibrar responsabilidade social com liberdade artística? A série, ao menos, parece consciente desses dilemas. Sua postura não glorifica, não perdoa e não romantiza. Pelo contrário, a narrativa expõe fragilidades, patologias e absurdos cotidianos, deixando ao espectador a tarefa de julgar — ou não — os personagens.
Tecnicamente, a direção de fotografia merece destaque. Tons acinzentados, verdes frios e sombras prolongadas estruturam uma paleta coerente com o clima emocional da série. O uso frequente de grades, portas entreabertas e vidros reforça visualmente o conceito de aprisionamento físico e psicológico. Cada cena parece pensada para transmitir a sensação de que não há caminhos fáceis — nem para quem está dentro, nem para quem observa de fora.
A montagem segue estilo sóbrio e pouco intrusivo. Não há cortes frenéticos ou manipulações estilizadas que tirem o espectador da imersão. Ao contrário, a edição privilegia o tempo da fala, do olhar, do silêncio. É uma escolha arriscada, mas que combina com o propósito da produção.
O roteiro, apesar de sólido, por vezes peca por didatismo. Há momentos em que personagens verbalizam o que já está claro em seus gestos ou em suas circunstâncias. Por outro lado, esse excesso de explicação pode ter sido pensado para espectadores menos familiarizados com os casos reais ou com a dinâmica penitenciária.
Se há uma crítica mais contundente, ela recai sobre o risco constante de transformar criminosos em protagonistas demasiadamente humanizados. Embora a série tente evitar isso, em algumas cenas o foco excessivo na história pessoal dos internos pode gerar desconforto em quem teme que narrativas dramáticas obscureçam o impacto real de seus crimes. É uma linha tênue, e Tremembé a percorre com cuidado, mas nem sempre com perfeição.
Ainda assim, a série se destaca por oferecer ao público brasileiro um tipo de ficção carcerária mais complexa do que o habitual. Não é uma série sobre crimes; é sobre o que resta depois deles. Sobre vidas suspensas, identidades fragmentadas, narrativas disputadas e a eterna pergunta sobre o que significa cumprir pena em um país onde o sistema prisional é tão controverso quanto os próprios internos.
Ao final, Tremembé deixa uma sensação curiosa: não de conclusão, mas de reflexão. A série não tenta responder se essas figuras são monstros, vítimas, cúmplices de si mesmas ou tudo isso ao mesmo tempo. Ela apenas expõe as camadas, mostra as rachaduras e convida o público a confrontar o desconforto de olhar para uma realidade que normalmente preferimos manter à distância.
É uma produção forte, densa e inquietante. Não para entretenimento fácil, mas para reflexão profunda. E, especialmente, para questionar a maneira como lidamos — enquanto sociedade — com os casos que mais nos chocam.

⭐⭐⭐ 3,0 de 5
