IT: Bem-Vindos a Derry nasce com uma missão delicada: expandir um dos universos mais icônicos do terror moderno sem descaracterizar sua essência. Como prelúdio direto dos filmes It – A Coisa (2017) e It: Capítulo Dois (2019), a série retorna à cidade amaldiçoada criada por Stephen King para investigar não apenas a origem de Pennywise, mas o próprio ciclo de violência, medo e silêncio que transforma Derry em um lugar eternamente condenado.
Ambientada majoritariamente na década de 1960, a produção opta por um caminho mais reflexivo e atmosférico, distanciando-se do terror mais explosivo do cinema e abraçando uma abordagem mais psicológica, gradual e inquietante. Aqui, o horror não surge apenas em aparições monstruosas, mas na sensação constante de que algo está errado — e sempre esteve.
A cidade como entidade viva
Um dos maiores acertos da série é compreender que IT nunca foi apenas sobre um palhaço assassino. Derry é apresentada como uma cidade doente, marcada por tragédias cíclicas, violência abafada e uma estranha normalização do absurdo. Adultos que ignoram o sofrimento das crianças, autoridades que fingem não ver e uma comunidade que escolhe o silêncio tornam-se cúmplices diretos do mal.
A série reforça a ideia de que Pennywise não age sozinho. Ele se alimenta de uma estrutura social falha, de preconceitos, abusos, traumas familiares e da incapacidade coletiva de enfrentar o horror de frente. Derry, nesse sentido, funciona como um organismo vivo que protege o monstro porque depende dele para manter sua falsa estabilidade.
Narrativa fragmentada e construção do medo
A estrutura narrativa aposta em múltiplos pontos de vista, acompanhando diferentes crianças e núcleos familiares que começam a vivenciar acontecimentos sobrenaturais aparentemente desconectados. Visões de um palhaço, aparições grotescas, figuras históricas distorcidas e entidades monstruosas surgem como manifestações isoladas, mas gradualmente revelam uma origem comum.
Esse formato fragmentado exige paciência do espectador, mas recompensa aqueles dispostos a mergulhar no clima da série. O terror é construído lentamente, quase de forma silenciosa, apostando mais na antecipação do que no choque imediato. Em muitos momentos, o que assusta não é o que aparece em cena, mas aquilo que fica fora do enquadramento.
Pennywise e o horror do desconhecido
Ao explorar a origem de Pennywise, Bem-Vindos a Derry caminha em um limite arriscado: explicar demais poderia destruir o mistério que torna o personagem tão assustador. Felizmente, a série opta por sugestões, símbolos e fragmentos de informação, mantendo o palhaço como uma entidade essencialmente incompreensível.
Pennywise continua sendo um predador que se adapta ao medo de suas vítimas. Sua capacidade de assumir diferentes formas reforça o caráter profundamente psicológico do horror: cada criança enxerga aquilo que mais a aterroriza, seja uma figura sobrenatural, um trauma familiar ou uma manifestação ligada à culpa e à repressão.
A série entende que o medo infantil é mais vulnerável porque nasce da falta de proteção, e é justamente isso que torna Pennywise tão eficaz. Ele não cria o terror — ele o explora.
Personagens, infância e trauma
O grupo de crianças apresentado pela série funciona como espelho emocional da narrativa. Cada personagem carrega dores muito humanas: abandono, violência doméstica, exclusão social, racismo, bullying e medo do futuro. O sobrenatural surge como uma extensão desses conflitos, nunca como algo isolado.
As atuações do elenco jovem são sólidas e convincentes, especialmente na forma como o medo é retratado de maneira contida, sem exageros. O vínculo entre os personagens se constrói aos poucos, reforçando a ideia de que a amizade não nasce do heroísmo, mas da necessidade de sobreviver juntos.
Já os adultos seguem o padrão clássico do universo de Stephen King: figuras ausentes, negligentes ou agressivas. Embora essa escolha seja coerente com a proposta, em alguns momentos ela se torna repetitiva e pouco aprofundada.
Direção, fotografia e ambientação
Tecnicamente, IT: Bem-Vindos a Derry é uma produção de alto nível. A direção aposta em enquadramentos fechados, movimentos lentos de câmera e uma fotografia fria, opressiva, que transmite constantemente a sensação de ameaça iminente. A reconstrução da década de 1960 é detalhada e cuidadosa, contribuindo para a imersão total na narrativa.
A trilha sonora é discreta, mas extremamente eficiente, utilizando ruídos, silêncios e sons ambientes para gerar desconforto. O uso do silêncio, em especial, se mostra uma ferramenta poderosa, criando tensão sem recorrer a sustos fáceis.
Ritmo e limitações
Apesar de seus muitos acertos, a série sofre com problemas de ritmo em determinados momentos. Alguns episódios parecem prolongar conflitos ou repetir informações já estabelecidas, o que pode afastar espectadores menos pacientes. Além disso, quem espera um terror mais gráfico ou semelhante ao impacto visual dos filmes pode se decepcionar com a abordagem mais contida e psicológica.
Ainda assim, essas escolhas reforçam a identidade própria da série, que prefere construir atmosfera a apostar em violência explícita.
Conclusão
IT: Bem-Vindos a Derry é um prelúdio sólido, maduro e respeitoso com o legado de Stephen King. A série entende que o verdadeiro horror de IT não está apenas no monstro, mas na repetição histórica do medo, na omissão coletiva e na incapacidade humana de romper ciclos de violência.
Não é uma obra pensada para agradar todos os públicos, mas sim aqueles que buscam um terror mais reflexivo, psicológico e simbólico. Ao expandir o universo de Derry, a série reforça uma verdade perturbadora: o mal sempre retorna quando ninguém está disposto a enfrentá-lo.

⭐⭐⭐⭐ 4/5
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