A reestruturação promovida pela Electronic Arts (EA) continua gerando repercussão entre os profissionais da indústria dos videogames. Em relatos publicados pelo site Vertical Slice, funcionários e ex-funcionários da companhia criticaram as demissões, a falta de transparência nas decisões da liderança e o incentivo ao uso de inteligência artificial generativa. Os depoimentos descrevem um ambiente de insegurança profissional, desgaste emocional e preocupação com o futuro dos estúdios.
As críticas também envolvem a gestão da BioWare, conhecida pelas franquias Mass Effect e Dragon Age, além dos impactos dos cortes em outras equipes da empresa. Os relatos oferecem um panorama da insatisfação de parte dos trabalhadores diante das mudanças internas.
Demissões e falta de transparência preocupam funcionários
Segundo os depoimentos reunidos pelo Vertical Slice, a comunicação sobre as demissões teria sido um dos principais motivos de insatisfação. Um dos trabalhadores afirmou que alguns funcionários descobrem que colegas foram dispensados apenas ao encontrar publicações no LinkedIn.
“Minha suspeita é que isso seja feito para isolar as pessoas demitidas”, declarou uma das fontes ouvidas pela publicação.
Os relatos também apontam dificuldades para reorganizar os projetos depois dos cortes. Com integrantes das equipes deixando a empresa, os funcionários que permanecem precisam identificar quem saiu e como as responsabilidades serão redistribuídas.
Alguns profissionais dispensados afirmaram ter recebido a notícia durante reuniões virtuais, sem oportunidade de fazer perguntas ou se despedir dos colegas.
“É muito impessoal. Você é demitido porque é apenas um número em uma lista”, relatou um trabalhador.
Essas experiências, segundo os depoimentos, contribuíram para aumentar a insegurança entre os funcionários que continuam na companhia.
Vagas internas não convencem todos os afetados
A EA teria oferecido a alguns profissionais atingidos pelos cortes a possibilidade de procurar outras oportunidades dentro da própria empresa. Entretanto, determinadas vagas exigiriam trabalho presencial três dias por semana, condição que poderia dificultar a permanência de funcionários acostumados ao trabalho remoto.
Um dos trabalhadores demonstrou insatisfação com a alternativa apresentada:
“É uma piada. Nem me dei ao trabalho de olhar [as vagas internas] porque não quero mais trabalhar neste lugar.”
Os depoimentos indicam que, para parte dos profissionais, a possibilidade de transferência não é suficiente para recuperar a confiança na companhia.
Inteligência artificial aumenta as preocupações
Outro ponto levantado pelos trabalhadores é o incentivo ao uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, incluindo o Claude. Segundo os relatos, a liderança vem promovendo essas tecnologias, embora sua utilização ainda não seja obrigatória.
A preocupação de alguns funcionários está relacionada à possibilidade de a IA ser utilizada para manter a produtividade com equipes menores, aumentando a pressão sobre os profissionais que permanecem.
“O moral estava péssimo. O que mais ouvíamos era ‘fazer menos, melhor’, mas a sensação era de que estávamos fazendo a mesma coisa com menos gente”, afirmou uma das fontes.
Outro funcionário resumiu a mensagem atribuída aos gerentes: “Este é o futuro, vocês precisam embarcar”.
Os relatos refletem o receio de que a adoção dessas ferramentas aconteça em conjunto com a redução das equipes, sem que isso necessariamente represente uma diminuição da carga de trabalho.
BioWare é alvo de críticas pela gestão dos projetos
A situação da BioWare também foi abordada nos depoimentos. O estúdio, responsável por séries consagradas como Mass Effect e Dragon Age, teria enfrentado mudanças frequentes de direção durante o desenvolvimento de seus projetos.
Segundo as fontes ouvidas pelo Vertical Slice, algumas decisões envolveram tentativas de incorporar elementos de jogos como serviço e modos multiplayer às produções, o que teria contribuído para desperdício de recursos e mudanças de rumo.
“Muito dinheiro foi desperdiçado seguindo caminhos que não levavam a lugar nenhum”, afirmou um dos trabalhadores.
Apesar das críticas à gestão, os funcionários também destacaram a qualidade dos profissionais que faziam parte da desenvolvedora. Os relatos sugerem que a insatisfação não está necessariamente relacionada à capacidade das equipes, mas às decisões tomadas durante o planejamento e a execução dos projetos.
Full Circle também teria sido afetada pelos cortes
Os impactos da reestruturação não se limitariam à BioWare. De acordo com as fontes citadas pelo Vertical Slice, a Full Circle, responsável pelo jogo skate., teria perdido entre 30% e 40% de uma equipe que contava com mais de cem pessoas.
A redução teria gerado questionamentos entre os trabalhadores, especialmente diante das expectativas de longo prazo associadas à franquia. Os relatos apontam uma contradição entre o discurso sobre o potencial do jogo e a diminuição da equipe encarregada de desenvolvê-lo.
A situação amplia as preocupações sobre como a EA pretende administrar seus projetos e distribuir recursos entre suas diferentes equipes.
EA pretende concentrar recursos em menos projetos
Em comunicado interno, a Electronic Arts afirmou que pretende concentrar seus recursos em um número menor de projetos de grande porte e apoiar os funcionários afetados na busca por outras oportunidades dentro da companhia.
Entretanto, os relatos publicados pelo Vertical Slice mostram que parte dos trabalhadores continua insatisfeita com a condução do processo e com as perspectivas para o futuro.
Um dos depoimentos resume o sentimento de frustração de alguns profissionais, que descrevem um ambiente corporativo marcado pela perda de confiança na liderança e pela preocupação com a própria estabilidade financeira.
É importante destacar que os relatos representam as experiências e opiniões dos funcionários ouvidos pela publicação e não necessariamente refletem a visão de todos os trabalhadores da EA.
A reestruturação evidencia os desafios enfrentados pela indústria dos games em um período de mudanças organizacionais, pressão por resultados e crescente adoção de inteligência artificial. Para os profissionais afetados, porém, as consequências vão além das estratégias empresariais: envolvem carreiras, condições de trabalho e a segurança de suas famílias.
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